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Freguesia de Vila Nova de Foz Côa, Pocinho, Sto Amaro e Mós

As recentes descobertas do Vale do Côa levam-nos a procurar as origens destas gentes no «homem do paleolítico», que há cerca de 20.000 anos desceu o vale e os vales vizinhos (incluindo os do rio Douro), pescando e caçando para sobreviver, gravando com «silex» os painéis do rijo xisto de ambas as margens, por ali se mantendo ou vagueando os seus descendentes, homens do Mesolítico, Neolítico, Calcolítico, Bronze e Ferro, numa sucessão de gerações inter-milenares, que se sucederam c completaram. Assim, na Canada do Inferno, no Vale de Figueira, no Vale de José Esteves, no Vale Cabrões, gravuras do Paleolítico e de períodos posteriores marcam bem a presença humana na área que hoje é termo de Vila Nova de Foz Côa.

No Castelo Velho do Monte Meão poderemos vir a encontrar vestígios pré-históricos, se bem que a muralha visível nos leve tão somente à Idade Média ou, mesmo, ao período de ocupação romana. Só sondagens arqueológicas poderão dar resposta a esta constante interrogação das pessoas, desde a visita ao local, no século XIX, do Abade de Miragaia.

Não será descabida a hipótese de tentar localizar, no lugar do Castelo, vestígios de um povoado da Idade do Ferro. Imensos vestígios líticos encontram-se nas imediações! No Paço são abundantes os vestígios de ocupação do período romano, o que nos leva a supor estarmos (ali no Castelo) perante um «Castro Romanizado»! No lugar do Azinhate sondagens arqueológicas permitiram recolher alguns materiais dos finais da Idade do Ferro, do período Romano e ainda da Idade Média, o que leva a referenciar, naquela veiga planáltica, uma ocupação ultra-secular continuada. Aliás, a julgar por notícias recentes, a Ara votiva que se encontra na Matriz de Foz Côa, dedicada a Júpiter, teria sido oriunda deste sítio.

Nos primórdios da Nacionalidade deve a terra ter sido arrolada pela Coroa, mantendo-se durante muito tempo como «terra reguengueira». Assim se explicará a sua não dependência do então município de Numão, bem como a disponibilização e vontade de D. Dinis em lhe conceder foros e mercês.

Recebeu o seu primeiro foral de D. Dinis, que lho outorgou em 21 de Maio de 1299. Nessa época, Foz Côa compreendia os seguintes limites: para além da Vila Nova, o lugar da Veiga de Santa Maria com seu termo; o Azinhate; Aldeia Nova, que por sua vez chegava ao termo de Vale de Boi, e daí o termo ia em direcção à Portela de Anovia, Muxagata, seguindo para o Côa até ao Douro. O foral dionisino reflecte já um processo de anexação, uma vez que a descrição do termo individualiza alguns lugares. Refira-se ainda que poucas décadas antes, no reinado de D. Afonso III, o lugar da Veiga foi objecto de uma Carta de Composição entre as Câmaras de Numão e da Vilariça.

O segundo foral foi-lhe também atribuído pelo mesmo monarca, que o fez, em Lisboa, a 24 de Julho de 1314. Entre as doações fernandinas, de 1 de Fevereiro de 1371, a favor de Fernando Afonso de Zamora figura também Foz Côa. O mesmo monarca, em 1373, torna a doar as terras de Foz Côa, mas agora a Rui Vasques Fernandes.

Segundo Pinho Leal, Foz Côa foi fundada por D. Dinis, tendo sido elevada à categoria de vila com D. João I. Esta opinião não nos parece ser a mais correcta, porque é precisamente com D. João I que Foz Côa sofrerá uma diminuição da sua autonomia administrativa. Foz Côa principiou a perder privilégios nos finais do século XIV, mais precisamente no reinado ele D. Fernando I e depois, ao iniciar-se a 2ª Dinastia. Em 15 de Julho de 1377, concede D. Fernando à Torre de Moncorvo a adua de Vila Nova de Foz Côa. Em 1385, o Mestre de Avis, estando no cerco de Torres Vedras, deu por termo e jurisdição à sua vila ele Moncorvo a «aldeia» de Vila Nova de Foz Côa. Este acto veio mais tarde a ser confirmado após a subida ao trono de D. João I. D. João I usou Vila Nova de Foz Côa, como terra reguengueira que era, para a sua política de captação de simpatias e apoios para a sua causa. Para além da anexação a Moncorvo, um dos pontos que estrategicamente mais interessava conservar e apoiar, D. João I pagou ainda outros apoios com rendimentos recolhidos em Foz Côa. Passada a crise nacional dos fins do século XIV, Vila Nova de Foz Côa assume o seu lugar de concelho, recebendo a confirmação dos seus privilégios por D. Duarte e por D. Afonso V. entre os senhores de Vila Nova de Foz Côa encontra-se Vasco Fernandes Coutinho, 1º Conde de Marialva.

Teve foral novo de D. Manuel I, em 16 de Julho de 1514, isto numa época em que teria uma população de cerca de 152 moradores, como indica o numeramento de 1527.

Sabemos que ao longo do século XVI, teve Vila Nova de Foz Côa uma demanda com o concelho vizinho de Moncorvo quanto aos direitos de passagem da barca do Douro. Este não foi, todavia, o único conflito em que se viu envolvida, dado que em 2 de Janeiro de 1551, publicou-se uma sentença contra a câmara por se opor à entrada em correição do corregedor da comarca, sem para tal ter privilégios. A administração civil era exercida por um ouvidor, 2 juizes ordinários, 2 vereadores, 2 tabeliães, 2 almotacés, escrivães, alcaide, meirinho da ouvidoria, capitão e sargentos-mores com duas companhias de ordenanças e uma de auxiliares sujeitas à praça de Almeida.

Em 1708 eram senhores da Vila os Condes de Portimão. Os marqueses de Abrantes possuíram também um morgado em Vila Nova de Foz Côa.

O século XIX foi particularmente violento em Foz Côa. Questões religiosas e políticas estiveram no despoletar dessas situações. Acrescente-se ainda que Vila Nova de Foz Côa viu nascer ao longo deste período um grupo de homens de qualidades invulgares, com projecção a nível nacional e que muitas das vezes combateram em partidos diferentes. Recorde-se o vintista José Joaquim Ferreira de Moura, o miguelista Joaquim José de Campos Abreu e Lemos, o setembrista Francisco António de Campos, 1º Barão de Vila Nova de Foz Côa e o cabralista António Joaquim Marçal, isto para citar apenas alguns, que passado mais de um século, ainda hoje é difícil falar sem tomar algum partido.

O concelho de Vila Nova de Foz Côa, beneficiando do desaparecimento de outros concelhos na região, viria finalmente, em 1872, a ganhar os contornos que ainda hoje o caracterizam.

Passemos, agora, a citar excertos da obra "História da Diocese de Lamego", do Dr. Manuel Gonçalves da Costa:

No âmbito eclesiástico, as referências antigas provocaram certa confusão que vamos tentar desfazer através da análise aos documentos segundo as leis da crítica comparativa. Na taxação de 1321, Santa Maria da Veiga pagou 50 libras, enquanto Foz Côa não vem sequer mencionada. Gozou, além disso, da categoria de abadia da apresentação real, tendo chegado até nós os nomes de alguns párocos, como Padre Mendes, que, em Janeiro de 1305, se comprometeu a pagar à Sé de Lamego um tanto por motivo de visitação, como já referimos algures. A 28 de Março de 1488, a apresentação de Luís Martins à igreja da Senhora da Veiga incluiu a «sua anexa de Fozcoa», por ter falecido o reitor desta última, Álvaro Anes, «vosso cantor». Já anteriormente, mas dentro do mesmo século, se mencionam outros reitores, como Fernando Vasques, por cujo falecimento foi nomeado, para o seu lugar, Martim Rodrigues, a 8 de Dezembro do 1463. Por outro lado, dois anos depois de subir ao trono, D. Manuel colocou à frente da mesma igreja o seu capelão João de Melo, por permuta com o abade Lopo Afonso, ao qual largou Santa Comba de Chancim, que era do padroado de Afonso Vaz de Sampaio; a em 1537, aparece também designado por abade o pároco de Vila Nova, D. Álvaro da Costa, que auferia o rendimento anual do 60 mil réis.

Em conclusão: a igreja do Foz Côa não obteve o título do matriz antes da conclusão do templo actual, principiado, muito provavelmente por D. João II, mantendo-se durante a Idade Média coma simples reitoria anexa a Santa Maria da Veiga. A importância desta advínha-lhe da própria antiguidade e da sua situação no lugar de passagem da barca de Moncorvo, centro de procissões de vários concelhos na segunda-feira depois do domingo in Albis, continuadas muito para além da Idade Média quando ficou reduzida a simples capela privada de direitos paroquiais.

A par de Vila Nova, Ievantava-se Aldeia Nova, com a igreja de Santa Maria, do padroado real e que, segundo os citados autores, foi fundada após a anexação de Riba-Côa a Portugal, ou por ter aumentado a população, ou com a fim de acolher os que abandonaram Azínhate por demasíado perto da fronteira com Leão. Nesta capela festejavam os estudantes Santa Luzia. Em honra da Senhora da Veiga promoviam os lavradores grande solenidade na matriz, no dia 8 de Setembro. São Sebastião, não longe do antigo cemitério, era o padroeiro dos sapateiros, enquanto Santo António, ao lado do Campo da Feira, recebia as homenagens dos cordoeiros. No dia da sua festa e em outros, corriarn-se ali touros criados no Monte Meão, costume que se manteve até meados do século passado. A maioria dos artesãos de Vila Nova moravam à volta do largo da Senhora da Conceição. A festa da Senhora do Amparo, no sítio do Azínhate, estava a cargo dos almocreves, e a Santa Bárbara, mais para nascente, solenizavam-na os cavadores com procissões, corridas de touros e outras manifestações de gosto popular. A airosa capela de Santa Quitéria, particular, reconstruída no século XVIII e ornada de belos azulejos, altares de talha dourada, acabaria por cair em ruínas nos meados do século seguinte. São Miguel que deu nome ao largo mas tarde conhecido por Campo da feira, ou da Lagoa, foi também demolida na mesma época para possibilitar o alinhamento da rua principal. Entrava-se nela por uma galilé e achava-se circuitada de diversos cobertos para use dos feirantes. A festa celebravam-na os moradores extra-muros. Até aos finais do século XVlll, mantinham-se ainda em pé as ermidas da Senhora da Encarnação e da Expectação, além da igreja da Misericórdia recordada, segundo parece, no nome duma rua.

Na terra fixou-se uma grande colónia de Judeus que fizeram prosperar a vila graças ao seu génio laborioso a de grande capacidade para a indústria. Os que se mantiveram após a infeliz expulsão decretada em 1496, continuaram confinados na judiaria do bairro do Castelo que conservou a designação de «Bairro dos Judeus», mesmo depois de extinta a divisão entre cristãos-novos e cristãos-velhos. D. Joaquim de Azevedo taxa injustamente de preguiçosos os fozcoenses pelo facto de se entregarem menos à agricultura do que ao comércio, ramo em que se mostram destros. Pare este autor, só o amanho da terra merece o título de trabalho. Reconhece porém que a fábrica de atanados e cordovões contribuiu para o enriquecimento de muitas famílias.